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Journal Siaris · Ensaio · Parte 1 de 2

Inglês fluente em 6 meses?
Os números dizem outra coisa.

Cursos prometem fluência em semanas. A pesquisa mede isso em centenas de horas — e nem os países mais ricos do mundo escapam dessa conta.

Alef Kurita Journal Siaris 7 min de leitura
Duas pessoas em uma conversa genuína
No fim, aprender uma língua é aprender a conversar de verdade.

Vamos aos números.

Quanto tempo leva, de verdade

A referência mais usada no mundo vem do Foreign Service Institute (FSI), que treina diplomatas americanos desde 1947. Atenção a um detalhe: o FSI mede o caminho contrário ao deste artigo — quantas horas um falante nativo de inglês precisa para aprender outros idiomas, até o nível profissional (~B2/C1) — e não apenas "sobreviver numa viagem".

Escala FSI · horas até nível profissional
Categoria IPortuguês, espanhol, francês
600–750h
Categoria IIAlemão, indonésio
~900h
Categoria IIIRusso, grego, hindi
~1.100h
Categoria IVMandarim, árabe, japonês
~2.200h
Gráfico 1 — horas estimadas para um falante nativo de inglês atingir nível profissional em cada categoria de idioma (FSI).

E o português, na ponta de quem aprende inglês? O FSI não publica essa conta ao contrário — mas a distância entre dois idiomas é considerada simétrica pelos linguistas. Português está na Categoria I, a mais fácil de todas. Se um americano aprende português em 600–750h, o caminho inverso — um brasileiro aprendendo inglês — deve ficar na mesma faixa.

Ou seja: mesmo no cenário mais favorável que existe, ainda são centenas de horas, não semanas.

Quer entender as escalas — IELTS, CEFR e onde fica "fluente"? +

O IELTS é um exame internacional de proficiência em inglês, muito usado para visto, trabalho ou estudo no exterior. Ele dá uma nota de 1 a 9, em incrementos de 0,5 (a "banda"):

BandaNível
4Usuário limitado
5Usuário modesto
6Usuário competente
7Bom usuário
8–9Muito bom / especialista

Onde fica "fluente"? Não existe corte oficial, mas a referência mais aceita coloca fluência real — se virar em quase qualquer situação, inclusive no trabalho — a partir da banda 7. As bandas 5 e 6 já permitem se comunicar, mas ainda com erros e travas que a maioria não chamaria de fluência.

Avançar "meia banda" significa subir 0,5 ponto — sair de 5.5 para 6.0, por exemplo. Não é virar de nível completo, é um salto modesto, mas real. Mesmo em condições ideais — turma pequena, professor qualificado, imersão total — a pesquisa de Cambridge encontrou que esse salto levou, em média, 200–240 horas de estudo intensivo (10–12 semanas em regime full-time).

A outra escala famosa, do Cambridge (CEFR), tem sua própria tabela de horas acumuladas desde o zero:

Nível CEFRHoras acumuladas
A1~90–100h
A2~180–200h
B1~350–400h
B2~500–600h
C1~700–800h
C2~1.000–1.200h

De A1 para A2: cerca de 90–100 horas adicionais. E, segundo o próprio IELTS, banda 5.5–6.5 equivale a B2, e banda 7–8 equivale a C1 — ou seja, fluência (banda 7+) bate perto de 700–800 horas, exatamente a faixa que o FSI estima para o português. Três escalas, três instituições, o mesmo recado.

Quase ninguém estuda em regime intensivo. Veja o que isso significa em ritmos reais:

RitmoMeia banda (~220h)Uma banda (~440h)
2h/semana~2 anos~4 anos
5h/semana~10 meses~1a 8m
20h/semana~3 meses~5 meses

Projeções extrapolam linearmente a taxa de estudo intensivo. Estudo casual tende a ser menos eficiente hora por hora — na prática, o tempo real provavelmente é maior.

Não há atalho que vença essa conta.

Mesmo os países mais ricos travam

Ranking do EF English Proficiency Index 2025, 123 países avaliados:

EF EPI 2025 · posição no ranking (1 = melhor)
Holanda
Coreia do Sul
48º
Brasil
75º
Japãoempatado com o Afeganistão
96º
Gráfico 2 — posição entre 123 países (quanto menor o número, melhor a proficiência média). Fonte: relatório completo EF EPI 2025 (PDF)
Japão
12,4%
dos alunos de 15 anos acertaram 5 perguntas orais simples num teste nacional — após 10 anos de inglês obrigatório.
Coreia do Sul
US$ 7 bi/ano
investidos só em cursinhos particulares de inglês — eficiência considerada baixa pelos próprios pesquisadores coreanos.

O padrão se repete: tempo e dinheiro não compram fluência.

Estudante preenchendo prova de múltipla escolha
Décadas de prova. Poucos minutos de conversa real.

E o Brasil, por dentro?

O Brasil lê inglês razoavelmente bem. Mas falar e escrever é outra história:

EF EPI 2025 · Brasil por habilidade
Leitura
516
Escuta
468
Fala
464
Escrita
442
Gráfico 3 — pontuação por habilidade (escala ampliada entre 400–520 para destacar a diferença relativa; valores exatos ao lado de cada barra).

A diferença entre leitura e escrita é de 74 pontos — o maior desnível entre as quatro habilidades. É o mesmo desequilíbrio do Japão e da Coreia: ensino forte em gramática e reconhecimento, fraco em produção real.

<20%

da população mundial fala inglês, em qualquer nível — apesar de toda a indústria, de décadas de ensino obrigatório, e da promessa de fluência rápida.

Se tempo e dinheiro não são o problema… o que é?

Parte 2 de 2
Por que decoreba não ensina ninguém a falar →
Fontes