Cursos prometem fluência em semanas. A pesquisa mede isso em centenas de horas — e nem os países mais ricos do mundo escapam dessa conta.
Vamos aos números.
A referência mais usada no mundo vem do Foreign Service Institute (FSI), que treina diplomatas americanos desde 1947. Atenção a um detalhe: o FSI mede o caminho contrário ao deste artigo — quantas horas um falante nativo de inglês precisa para aprender outros idiomas, até o nível profissional (~B2/C1) — e não apenas "sobreviver numa viagem".
E o português, na ponta de quem aprende inglês? O FSI não publica essa conta ao contrário — mas a distância entre dois idiomas é considerada simétrica pelos linguistas. Português está na Categoria I, a mais fácil de todas. Se um americano aprende português em 600–750h, o caminho inverso — um brasileiro aprendendo inglês — deve ficar na mesma faixa.
Ou seja: mesmo no cenário mais favorável que existe, ainda são centenas de horas, não semanas.
O IELTS é um exame internacional de proficiência em inglês, muito usado para visto, trabalho ou estudo no exterior. Ele dá uma nota de 1 a 9, em incrementos de 0,5 (a "banda"):
| Banda | Nível |
|---|---|
| 4 | Usuário limitado |
| 5 | Usuário modesto |
| 6 | Usuário competente |
| 7 | Bom usuário |
| 8–9 | Muito bom / especialista |
Onde fica "fluente"? Não existe corte oficial, mas a referência mais aceita coloca fluência real — se virar em quase qualquer situação, inclusive no trabalho — a partir da banda 7. As bandas 5 e 6 já permitem se comunicar, mas ainda com erros e travas que a maioria não chamaria de fluência.
Avançar "meia banda" significa subir 0,5 ponto — sair de 5.5 para 6.0, por exemplo. Não é virar de nível completo, é um salto modesto, mas real. Mesmo em condições ideais — turma pequena, professor qualificado, imersão total — a pesquisa de Cambridge encontrou que esse salto levou, em média, 200–240 horas de estudo intensivo (10–12 semanas em regime full-time).
A outra escala famosa, do Cambridge (CEFR), tem sua própria tabela de horas acumuladas desde o zero:
| Nível CEFR | Horas acumuladas |
|---|---|
| A1 | ~90–100h |
| A2 | ~180–200h |
| B1 | ~350–400h |
| B2 | ~500–600h |
| C1 | ~700–800h |
| C2 | ~1.000–1.200h |
De A1 para A2: cerca de 90–100 horas adicionais. E, segundo o próprio IELTS, banda 5.5–6.5 equivale a B2, e banda 7–8 equivale a C1 — ou seja, fluência (banda 7+) bate perto de 700–800 horas, exatamente a faixa que o FSI estima para o português. Três escalas, três instituições, o mesmo recado.
Quase ninguém estuda em regime intensivo. Veja o que isso significa em ritmos reais:
| Ritmo | Meia banda (~220h) | Uma banda (~440h) |
|---|---|---|
| 2h/semana | ~2 anos | ~4 anos |
| 5h/semana | ~10 meses | ~1a 8m |
| 20h/semana | ~3 meses | ~5 meses |
Projeções extrapolam linearmente a taxa de estudo intensivo. Estudo casual tende a ser menos eficiente hora por hora — na prática, o tempo real provavelmente é maior.
Não há atalho que vença essa conta.
Ranking do EF English Proficiency Index 2025, 123 países avaliados:
O padrão se repete: tempo e dinheiro não compram fluência.
O Brasil lê inglês razoavelmente bem. Mas falar e escrever é outra história:
A diferença entre leitura e escrita é de 74 pontos — o maior desnível entre as quatro habilidades. É o mesmo desequilíbrio do Japão e da Coreia: ensino forte em gramática e reconhecimento, fraco em produção real.
da população mundial fala inglês, em qualquer nível — apesar de toda a indústria, de décadas de ensino obrigatório, e da promessa de fluência rápida.
Se tempo e dinheiro não são o problema… o que é?